Agradecimentos á Paulo Castro, mentor do site www.tonicoetinoco.cjb.net, pela referência bibliográfica cedida.
Introduzido pelos colonizadores portugueses, o carro de boi difundiu-se por todo o país, existindo ainda no meio rural nordestino.
O carro de boi foi um dos principais meios de transporte utilizados para transportar a produção das fazendas para as cidades, mas ainda é utilizado em algumas regiões do país.
O carro de bois era o equipamento do lavrador o mais útil para os trabalhos do campo e não só, servia, também, para as mais diversas utilizações, como por exemplo : para a matança do porco, malhar o centeio na eira, como mesa de merenda ou para transportes de doentes ou acidentados para o hospital.
Em alguns municípios, como em algumas regiões do interior brasileiro, ainda há fazendeiros que realizam mutirões de carros de bois para transportar suas produções agrícolas e também outros produtos.
O som estridente característico do carro de bois, chamado de canto, lamento ou gemido, também faz parte da nossa cultura.
Dotado de uma estrutura que não possui o diferencial, suas rodas travam durante as curvas. Quando em movimento, o autêntico carro de bois emite um som estridente característico - o cantador - que anuncia a sua passagem.
Algumas das partes do carro de boi:
* arreia: as tábuas da mesa;
* cabeçalho: a longa trave que liga o corpo do carro ao qual se atrelam os bois;
* cantadeira ou chumaço: peça com a parte inferior em forma de V invertido, onde se encaixa o eixo da roda e que produz o som característico;
* cheda: Prancha lateral do leito do carro de bois, na qual se metem os fueiros;
* cocão: parte do eixo que se encaixa na cantadeira;
* fueiro: cada uma das estacas de madeira que servem para prender a carga no carro;
* mesa: a superfície onde se coloca a carga;
* tambueiro: gancho de madeira que é colocado no pescoço do boi e é preso pela brocha;
Festivais do carro de boi
Por seu valor cultural, o carro de boi é homenageado em diversos festivais e encontros, onde se reúnem os últimos usuários e colecionadores desse meio de transporte rústico e simbólico do meio rural brasileiro. Em Minas Gerais, são conhecidos os festivais de carro de boi de Formiga, Bambuí, Ibertioga e Desterro de Entre Rios.
Na arte
O carro de boi é um elemento referencial, na intervenção feita no Solar do Unhão, atual sede do Museu de Arte Moderna da Bahia, pela arquiteta Lina Bo Bardi: uma escada de madeira, interna, foi toda ela feita seu uso de parafusos ou pregos - tal como no carro.
A música sertaneja, com sua pioneira dupla Tonico e Tinoco, junto a Anacleto Rosas Jr., compôs a canção Boi de Carro, onde traçam um paralelo ao boi já velho com o trabalhador que avança na idade. Abaixo você encontra o link para baixar uma bela poesia que representa muito bem os "velhos tempos do carro de boi". Clique aqui para baixar.
A Construção
Visto de frente, de lado, de cima e de baixo, o bicho é veículo simples, de duas rodas. Todo feito de madeira, menos os aros das rodas, a chaveta e o argolão, que são de ferro, leva as cargas na mesa, que remonta no par de rodas e tem um varejão reforçado onde se atam os bois, chamado cabeçalho.
Abaixo, vista Lateral do Carro de Boi
1- fueiro
2- chumaço
3- oca
4- cocão
5- chaveta
6- eixo
7- aro da roda
8- orelha e
9- argolão
Abaixo, Vista superior do carro.
1- orelha
2- cabeçalho
3- cheda
4- roda
5- eixo
6- arreia
7- cadião ou recavém
8- braçadeira metálica
Foto da parte superior do carro, mostrando algumas das partes constantes do diagrama acima.
Vista do carro por baixo, notando-se as chedas , cabeçalho e o assoalho travados pelas arreias, em número de cinco. À direita vê-se o argolão, preso na ponta do cabeçalho, junto ao cadião. No meio da mesa vê-se os quatro cocões, dois de cada lado.
Parte dianteira do cabeçalho, mostrando a chaveta e a orelha. Aqui é presa a canga dos bois de coice.
Parte trazeira da mesa, conhecida como
cadião ou recavém. Notar a meia-lua do cabeçalho, que continua por baixo do cadião e onde é preso o argolão (oculto).
Vista inferior do carro, vendo-se o eixo, as arreias que prendem o assoalho da mesa nas chedas curvas, e os cocões.
Detalhe do cocão, preso entre as emborgueiras, vendo-se a cantadeira e o chumaço, de madeira clara e mole.
A mesa é feita de duas chedas que saem uma de cada lado, ligadas no cabeçalho e que apoiam o assoalho. As chedas e as arreias que as unem são feitas de cabreúva, madeira que nem se sabe se existe mais. O assoalho é de canelão, ou outra madeira nem muito dura, nem muito mole. Na parte de trás, fica o rebaixo (recavém).
Roda de cabreúva, mostrando o agulhamento radial de botões metálicos e ao centro na almofada, os dois gatos, para proteger o meião de rachaduras.Observa-se ainda, as duas cavilhas cônicas travando a roda.
Diagrama da roda, mostrando suas partes:
1 - cambota
2- meião
3- arreia
4- almofada
5- ponta do eixo
6- amecha ou buraco da roda
7- óculos ou oca
8- separação entre a cambota meião
9- aro de metal da roda.
Rodas de carro, semiprontas, de jacarandá da Bahia. Note que o meião ainda não foi cortado.
Uma das rodas ao lado, com o meião separado
das cambotas, para mostrar como é feito o travamento interno com as duas arreias.
As rodas são de cabreúva, a parte do centro é chamada meião e lateralmente se limita com as duas cambotas. O meião, perto das cambotas, tem sempre dois buracos, o bocão, ou oca, que é para o som criar força e ecoar. O aro da roda é de ferro, e para ser calçado, é forjado na bigorna, a malho, redondo perfeito, então esquentado quase ao vermelho numa fogueira de roda. O ferreiro e os ajudantes o ajeitam em cima da roda, no chão, acertam rápido com golpes de malho para não ficar torcido e, estando paralelos, o esfriam com água. O ferro se contrai de a madeira estalar... Nunca ninguém mais tira. Os cravos de meio palmo eram só pelas dúvidas.
O eixo também é da desaparecida cabreúva, oitavado e com morgueiras do lado de dentro, para o chumaço não escapulir do cocão. São dois de cada lado, e é por donde gira o eixo. O chumaço deve, de preferência, ser feito de canelão, pra o carro realmente cantar. Madeira dura canta fino, de gaita, canelão canta de pombo ou canta baixo. Capixingui, baraúna e caviúna fazem carro cantar até sem carga, mas pedem óleo de copaíba. Canelão canta com óleo de mamona. Esse fica num chifre chamado azeiteira, amarrado com correia num fueiro, e uma vara com trapo na ponta é usada para por óleo no chumaço. Tem vez que o eixo, no atrito com o chumaço, chega a fumacear e levantar labareda. Aí o carreiro pega os cachos de mamona verde e limpa a cantadeira, que é a área do chumaço ajustada no eixo.
Partes do eixo da roda. 1 - espiga, com 24 cm de comprimento e secção quadrada,terminando com 8 cm de lado, na ponta do eixo.
2- emborgueira ou morgueira, com 6 cm de largura
3- cantadeira, com 11 cm de largura e rebaixo de 3 cm
4- emborgueira de dentro, com 4 cm de largura e
5- degolo do eixo, com comprimento de 75 cm.
Foto de um eixo montado com suas rodas. Pode-se notar a posição exata dos chumaços em cima das cantadeiras.
Vista lateral do conjunto, podendo-se ver o agulhamento, os gatos, as cavilhas prendendo a roda, as ocas e um chumaço. Estas lindas rodas são de jacarandá da Bahia e o eixo é de cabreúva.Notar a perpendicularidade entre os meiões, de tal forma que ao andar o carro, e por segurança, um dos dois meiões está sempre em contato com o chão.
A canga tem quatro canzis, dois de cada lado, servindo um par para cada boi. É feita de cabreúva, açoita-cavalo, assapuva ou amendoim, algumas vezes revestida de couro cru. A de cabeçalho é mais pesada, pois segura os bois de coice, os primeiros depois do carro. Os canzis são feitos de peroba, guatambu ou alecrim, têm de ser lisos e bem volteados, para não machucar os bois.
Os do cabeçalho têm de ser volteados juntamente com a canga, para o boi poder segurar o carro e parar, quando for preciso. A parte grossa da canga é a barriga, nela encontra-se o tamoeiro de couro cru torcido em várias voltas, que serve para a passagem do cabeçalho, seguro pela chaveta. A orelha é uma haste de madeira atravessada perto da chaveta e também serve para segurar o cabeçalho.
Tipos de cangas
a- canga de coice
b- canga de meio
c - canga de guia.
1- canzil
2- fura da canga
3- tamoeiro
4- brocha.
Canga de coice ou cabeçalho, mais reforçada. Notar os canzis de madeira, as brochas e o tamoeiro central, peças de couro trançado.
Canga de meio ou guia, mais delgada, com as mesmas peças de madeira e couro.
Na traseira do carro, há o argolão de ferro, que serve para engatar os bois para puxar o carro para trás, quando encalha, e para encangar os bois de retranca, quando a descida é muito forte. Nela se amarra a tiradeira, ou cambão, quando se tem que "depenar uma coruja", que é como o povo chama tirar o carro do atoleiro.
O cambão é um varejão forte e reto feito de cabreúva, assapuva, guatambu ou peroba. Tem na parte da frente uma chaveta e, na de trás, o rabo, de couro cru, que se engata na chaveta da junta de bois anterior. Quanto mais bois na canga, mais cambões são usados. Também se usa rabo de corrente e gancho de ferro, mas o certo é o couro cru.
A mesa, sem os fueiros, de pouco serve. Fueiro é haste reta e forte, de carrapateiro, guaritá, assapuva ou peroba, que se encaixa nos furos dos lados do assoalho, em geral cinco de cada lado, dois na frente e dois no cadião. Seguram a carga e escoram a esteira, um trançado de taquara de mais ou menos um metro de altura, que fica em pé e tem abertura no fundo do carro. Fecha com atilhos de couro. Para proteger a carga, usa-se couro curtido inteiro de boi. Quatro deles cobrem um carro:
1- tiradeira
2- chaveta
3- rabo ou rabada
4- vara de ferrão
5- ajoujo
6- azeiteira e o pincel
Das tralhas miúdas, temos o ajoujo, que serve para amarrar os chifres de um boi ao outro, formando a junta. Também serve para aquietar menino danado... É feito de couro cru, tem mais ou menos duas braças de comprido. Os tamoeiros também são de couro cru torcido e volteiam as cangas, servindo para travar a frente dos cambões ou tiradeiras pelas chavetas. Temos também a brocha, que serve para amarrar os canzis por baixo do pescoço, para segurar o boi e evitar que a canga solte do cangote. Mede mais ou menos um palmo e é feita de couro cru torcido.
Há a escora, de madeira, que vai um palmo acima da canga e dois palmos e meio abaixo, servindo para apoiar o carro, quando parado, aliviando o peso nos bois de coice, ou para manter o cabeçalho na horizontal, quando desatrelado. Cabeçalho no chão dá azar.
Finalmente, existe a vara de ferrão, de carrapateiro e até de peroba, na frente leva ponteiro de ferro que, antes da ponta, tem furo com duas ou três argolas de ferro, que chacoalham e, assim, o boi já sabe que lá vem cutucão e desamua, ou arranca mais. Carreiro bom não espeta boi de tirar sangue. Só ponteia, depois o bicho se mexe só pelo barulho das argolas. Quando tem muitas juntas, costuma-se amarrar na ponta do ferrão uma tira comprida de couro, para alcançar e deixar os bois lá da frente mais espertos.
As Madeiras
As madeiras empregadas para fabricar carros de boi são, em geral, as seguintes:
Mesa: sucupira, óleo vermelho (cabreúva), ipê, tabaco, garapa cipó,
jacarandá da Bahia.
Chedas: sucupira e as demais usadas na mesa.
Eixo: óleo vermelho.
Arreias: roxinho, óleo.
Tornos ou pinos: roxinho, óleo.
Fueiros: tambu, garapa, pitangueira, guamirim,calcanhar de cotia.
Cavilha: roxinho ou óleo vermelho.
Pigarro: óleo vermelho ou sucupira.
Cocões: óleo vermelho.
Chumaço: canela sebosa, leiteiro, figueira sangra dágua.
Canga: bico de pato, caviúna, sapuva(saperetê), jacarandazinho da várzea(sapuvão) e jacarandá.
Canzil: laranjeira da mata virgem, roxinho, peroba, ipê, laranjeira de casa, óleo pardo, pitangueira e pequiá.
Tamanho das peças do carro de boi Mesa:
Comprimento 3 metros por 1,30 de largura.
Cabeçalho: 4,5 a 5 metros.
Eixo: 1,65m de comprimento e 22 centímetros de espessura ou 9 polegadas.
Roda: 1,20m de altura. Fueiros: 1,20 a 1,50m de comprimento.
Nota: Estas medidas variam de acordo com os fabricantes e o tamanho do carro.
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